Star Trek: Discovery – Minhas impressões finais

Nota: Preciso dizer que isto aqui é apenas um opinião pessoal e muito resumida?

Provavelmente, Star Trek – TOS, que na época chamávamos simplesmente de Jornada nas Estrelas, seja a verdadeira responsável por eu gostar de ficção científica. Claro, toda criança tem muita imaginação (eu tinha pouco mais de sete anos quando vi a reprise da série pela primeira vez com meus pais), mas acredito que é necessário um produto cultural aparecer e, em algum momento, fisgar a sua imaginação. Bom, Jornada nas Estrelas me fisgou.

Star Trek: Discovery não conseguiria esta façanha. Afinal, estou (beeeeem) mais velho e já sabia o que esperar quando a nova série estreou depois de uma montanha de problemas de produção. Agora, depois do último episódio da primeira temporada, posso dizer que, no geral, gostei do que vi. Discovery é uma série divertidíssima, graças a um monte de plot twists e ao ritmo quase sempre bem ágil. Mas, para obter este efeito, com frequência os roteiristas atropelaram resoluções e desenvolvimento de situações e personagens.

Atenção: a partir de agora, spoilers!

Discovery quebra algumas tradições de Star Trek. A história não é mais centrada em um capitão, mas em um membro da Frota Estelar que tomou uma decisão complicada e paga caro por isto: a oficial Michael. Seu arco é óbvio desde o princípio. Toda a temporada serve à sua redenção. Apesar de irmã adotiva de Spock (oi?) e criada em Vulcano, fica claro que sua “humanidade” tem maior peso em sua personalidade do que a herança cultural vulcana. Às vezes, impulsiva, mas inteligente e lógica, ainda que capaz de decisões inacreditavelmente estúpidas, Michael é o foco da temporada. O que se revela bastante problemático. Por exemplo, só no último episódio descobrimos a motivação interior para seu motim e ataque aos klingons que é o pontapé para toda a história. Se esta informação tivesse sido revelada antes, a empatia pela personagem seria maior e talvez não tivéssemos que aturar um dos piores episódios de Discovery (Lethe, o sexto).

Muitos fãs reclamam que Discovery não foca nos membros da tripulação, ou melhor, da ponte de comando, o que discordo. Na verdade, neste aspecto, parece-se mais com a série original, que era praticamente centrada no triunvirato Kirk-Spock-McCoy. Aqui, temos Michael, Saru, Tilly e Stamets (e se deixei de fora o capitão Lorca e o doutor Culber, é porque nenhum dos dois sobrevive a temporada). Tropeços de roteiro a parte, todos os quatro evoluem muito bem ao longo da trajetória. Além disso, um ponto positivo é que os tripulantes não são mostrados como exemplos bem-acabados de seres humanos devotados unicamente a ciência. Há mais falhas e pequenos deslizes neles. No episódio “Magic to Make the Sanest Man Go Mad”, também conhecido como “Feitiço do Tempo do Espaço” ou “Quantas Vezes Vamos Matar Lorca”, vemos uma festa a bordo que não é nem um pouco diferente daquela que acontece na firma onde eu e muitos de nós trabalhamos. Li muita reclamação a respeito disto, mas eu achei tão ridículo quanto genial.

Ainda em se tratando de personagens, Saru já é meu preferido. Há uma cena em particular que demonstra a capacidade de Doug Jones (parceiro habitual de Guilherme delToro): quando a imperatriz Philipa é trazida a bordo da nave e revela o lugar reservado a espécie de Saru em seu universo, sua resposta é imediata. Num misto de raiva e respeito às regras da Federação, ordena o teletransporte e alocação em aposentos de acesso limitado da imperatriz. Que o ator consiga transmitir este mistura mesmo debaixo de máscara e maquiagem é um feito.

Os relacionamentos estão entre os grandes acertos e erros da série. A maior parte dos erros podem ser creditados a alguns diálogos pavorosos entre Tyler e Michael. O romance entre os dois não incomodou tanto, mas as falas piegas e exageradas foram difíceis de aturar. Por outro lado, Stamets e Culber formaram um excelente casal, com uma dinâmica natural, carinhosa e realista. Ainda não consegui entender a razão de introduzir os primeiros personagens homossexuais de destaque em Star Trek para depois matar um deles de forma tola. Parece até que os roteiristas e produtores tiveram medo de mantê-los na série, o que seria uma covardia injustificável.

Discovery beneficia-se do formato de história seriada, mas isto não a impede de resolver alguns problemas bem complexos de forma acelerada, como se as soluções tivessem sempre que caber em quarenta minutos ou menos de cada episódio. O final é especialmente ligeiro e a manobra de Michael não faz lá muito sentido — que talvez não seja muito pior do que a decisão desesperada da Federação em dar o comando da mais importante nave da Frota a uma imperatriz psicopata, afinal, o capitão Lorca diria que tempos desesperados pedem medidas extremas Mas tenho que reconhecer que o lado emocional funcionou para mim. O paralelo entre a trajetória de Michael e o reconhecimento dos valores que fundamentam a Frota Estelar, culminando naquela cena óbvia e tola (“Capitain, my capitain”… Ops, não, “We are Starfleet”), me deixou satisfeito. Até mesmo o encontro mais do que esperado com a Enterprise não me irritou, embora seja uma jogada explícita para agradar aos fãs.

Em resumo: Discovery diverte, e muito. Espero que a segunda temporada mantenha esta pegada. Que os conflitos sejam melhor trabalhados e resolvidos e que, apesar do último episódio, a série não se transforme numa sucessão de fan services. Há muito mais a se falar sobre ST:D, mas fico por aqui. Faço parte do grupo que ainda acha que seria melhor uma série que se passasse no futuro e não no passado da série original, por isso torço para que Discovery continue a ser a visão que os escritores e público do século XXI têm do futuro distante e não retorne aos anos 60-70 do século passado.

Treta de fã 1: O design da Discovery não me agradou. A U.S.S. Shenzou era muito mais bonita.

Treta de fã 2: Por São Rodenberry, o que o Saru precisa fazer ainda mais para ser promovido?

Treta de fã 3: Achei sensacional a participação de Clint Howard no último episódio!

Treta de fã 4: Por mais controverso que pudesse ser, eu gostava do Lorca de Jason Isaacs. Mas sua trajetória mostra mais uma vez que você não chama Jason Isaacs para fazer mocinhos e nem mesmo anti-heróis. É como ter Sean Bean no elenco e não matar o seu personagem. E é por isso também que alguns fãs de Star Wars ainda esperam que o Poe Dameron de Oscar Isaac se revele um traidor.

Treta de fã 5: Na verdade, é uma leve polêmica que vou lançar: Star Trek nunca foi hard sci-fi, desculpe. Sim, a viagem pela rede micelial é uma bobagem sem pé nem cabeça, mas não é nem um pouco diferente do technobabble que adoramos ouvir dos personagens em todas as séries de Star Trek.

Adeus, Le Guin

Reproduzo aqui parte do discurso de Ursula Le Guin, falecida hoje aos 88 anos, proferido em 2014 quando recebeu o National Book Award. Traduzido por Ana Cristina Rodrigues e Petê Rissati, a íntegra está no site Talkative Bookworm.

“Livros, vocês sabem, não são apenas mercadorias. A motivação pelo lucro está frequentemente em conflito com os objetivos da arte. Vivemos no capitalismo. O seu poder parece ser inevitável. Assim era o poder divino dos reis. Os seres humanos podem resistir a qualquer poder humano e mudá-lo. A resistência e a mudança muitas vezes começam na arte, e muitas vezes mais na nossa arte – a arte das palavras.

Tive uma carreira longa, uma boa carreira. Em boa companhia. Agora, aqui, no final dela, realmente não quero assistir a literatura americana ser apunhalada pelas costas. Nós que vivemos da escrita e da vida editorial queremos – e devemos exigir – a nossa parte dos resultados. Mas o nome da nossa bela recompensa não é lucro. O seu nome é liberdade.”

Resenha: Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados, de Ana Cristina Rodrigues (sem spoilers)

Tive o prazer de ler Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados, romance de Ana Cristina Rodrigues, ainda não publicado. A autora já tem várias obras publicadas (incluindo uma coletânea recente que se passa no mesmo universo do Atlas, Fábulas Ferais) e batalha há muito tempo tanto pelo reconhecimento quanto pelo crescimento da literatura fantástica brasileira.

O romance começa em Shangri-lá, terra das feras e bestas, refúgio contra o avanço dos homens sobre o mundo. Em poucas páginas, conhecemos Íbis, o homem-morcego capitão da Guarda Interna e pai de Maya, também capitã do exército que defende a cidade. Além, claro, do conflito universal entre eles: o pai que deseja salvaguardar a filha dos horrores do mundo e a filha que o confronta em busca de sua individualidade. Aqui está uma grande qualidade do livro: os conflitos, provações, fracassos e decisões de seus personagens, ainda que fantásticos em sua natureza, são humanos, reconhecíveis e palpáveis. Em mais de um momento, o Atlas emociona.

O ritmo do início do romance e a sucessão de acontecimentos de grande repercussão na batalha por Shangri-lá, no entanto, são ilusórios. O destino da civilização e dos personagens é apenas o início de uma narrativa que cresce de uma forma inesperada e que justifica o título “ageográfico” do Atlas. Quando os personagens (Íbis, o Rei-Máquina, uma humana sem memórias e um cavalo sem nome) se encontram perdidos em um deserto literal, tendo de confiar uns nos outros para sobreviver e chegar a um lugar que ainda não sabem bem qual seja, fica claro que o fio condutor desta história é a memória. Cada um deles redescobre seu passado até que entendam, em parte, quem são e o que fazem ali. São histórias diversas no tempo e no espaço, que mantém o interesse contínuo ao apresentar cenários e situações muito diferentes entre si, ao mesmo tempo em que desenvolvem os personagens e ampliam nossa compreensão do universo do Atlas. Não existe sidequest aqui: a história avança sempre.

A estrutura do romance lembrou-me uma espiral. Ou melhor: é como se o leitor começasse na parte interna de uma espiral, onde ainda enxerga pouca coisa. Mas a medida em que caminha, ele consegue ver cada vez mais do mundo e descobre que a realidade que acreditava conhecer é apenas uma de muitas. E, sim, nem tudo é explicado em todos os detalhes. Há dúvidas, espaço para que o leitor preencha lacunas com sua própria imaginação. Como é bom acompanhar uma história que não fica obcecada em explicar cada mínimo detalhe de seu universo como se não confiasse no leitor.

Quem segue a Ana Cristina nas redes sociais vai reconhecer muitas das referências, valores e vivências da autora. O modo como ela traduz tudo isto em ficção é quase uma lição para qualquer escritor: a história que ela conta não fica em segundo plano e as referências nunca atrapalham, apenas enriquecem a obra. Fazendo um esforço tremendo para não dar um pequeno spoiler, há um momento particularmente doloroso quando o exemplar de um certo livro é encontrado junto ao Atlas, já no final do romance.

Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados é um livro de fantasia que apresenta um universo inédito, foge de tropes convencionais do gênero (muita atenção às personagens femininas; nós, escritores homens, precisamos ler mais livros assim), nos apresenta personagens sólidos e vívidos e passeia com desenvoltura por mitologias e ideias diversas.

Espero sinceramente que Íbis e o Rei-Máquina encontrem logo seu lugar nas livrarias.

Sobre leitura beta

No episódio 33 do podcast Curta Ficção, os hosts Thiago Lee e Jana Bianchi falam de leitura beta: o que é e como lidar com ela, tanto na visão do leitor quanto do escritor. Um ótimo episódio que me fez conhecer o infográfico esclarecedor da escritora Mary Robinette Kowal.

O mais importante, para quem faz este trabalho de leitura beta (especialmente se é um escritor) é que o autor do livro quer saber se o universo criado por ele e que faz todo o sentido do mundo em sua cabeça foi transcrito para o texto de uma forma que o seu leitor entenda. O escritor não está procurando diagnóstico ou dicas: ele quer sintomas. O que o leitor sentiu ao ler sua obra, o que funcionou ou não, os bons momentos e os problemáticos.

Como Mary Robinette resume, ao final do post:

All you have to do is report your symptoms.
All the writer has to do is record data points.

 

(Atrasado) Saiu a seleção da coletânea Cyberpunk!

(Eu sei, eu sei. O site recém-inaugurado estava fora do ar, por isso a notícia mais atrasada do que um Hotbit MSX 1.2 de 64Kbytes de RAM)

Notícia para alegrar o dia: meu conto, Sonho de Menino, foi selecionado para integrar a coletânea Cyberpunk, da Draco. Muito feliz em ter um conto pela segunda vez na editora (o primeiro foi na Futebol: Histórias fantásticas de glória, paixão e vitórias) e em excelente companhia! Parabéns a todos os selecionados!