Adeus, Le Guin

Reproduzo aqui parte do discurso de Ursula Le Guin, falecida hoje aos 88 anos, proferido em 2014 quando recebeu o National Book Award. Traduzido por Ana Cristina Rodrigues e Petê Rissati, a íntegra está no site Talkative Bookworm.

“Livros, vocês sabem, não são apenas mercadorias. A motivação pelo lucro está frequentemente em conflito com os objetivos da arte. Vivemos no capitalismo. O seu poder parece ser inevitável. Assim era o poder divino dos reis. Os seres humanos podem resistir a qualquer poder humano e mudá-lo. A resistência e a mudança muitas vezes começam na arte, e muitas vezes mais na nossa arte – a arte das palavras.

Tive uma carreira longa, uma boa carreira. Em boa companhia. Agora, aqui, no final dela, realmente não quero assistir a literatura americana ser apunhalada pelas costas. Nós que vivemos da escrita e da vida editorial queremos – e devemos exigir – a nossa parte dos resultados. Mas o nome da nossa bela recompensa não é lucro. O seu nome é liberdade.”

Resenha: Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados, de Ana Cristina Rodrigues (sem spoilers)

Tive o prazer de ler Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados, romance de Ana Cristina Rodrigues, ainda não publicado. A autora já tem várias obras publicadas (incluindo uma coletânea recente que se passa no mesmo universo do Atlas, Fábulas Ferais) e batalha há muito tempo tanto pelo reconhecimento quanto pelo crescimento da literatura fantástica brasileira.

O romance começa em Shangri-lá, terra das feras e bestas, refúgio contra o avanço dos homens sobre o mundo. Em poucas páginas, conhecemos Íbis, o homem-morcego capitão da Guarda Interna e pai de Maya, também capitã do exército que defende a cidade. Além, claro, do conflito universal entre eles: o pai que deseja salvaguardar a filha dos horrores do mundo e a filha que o confronta em busca de sua individualidade. Aqui está uma grande qualidade do livro: os conflitos, provações, fracassos e decisões de seus personagens, ainda que fantásticos em sua natureza, são humanos, reconhecíveis e palpáveis. Em mais de um momento, o Atlas emociona.

O ritmo do início do romance e a sucessão de acontecimentos de grande repercussão na batalha por Shangri-lá, no entanto, são ilusórios. O destino da civilização e dos personagens é apenas o início de uma narrativa que cresce de uma forma inesperada e que justifica o título “ageográfico” do Atlas. Quando os personagens (Íbis, o Rei-Máquina, uma humana sem memórias e um cavalo sem nome) se encontram perdidos em um deserto literal, tendo de confiar uns nos outros para sobreviver e chegar a um lugar que ainda não sabem bem qual seja, fica claro que o fio condutor desta história é a memória. Cada um deles redescobre seu passado até que entendam, em parte, quem são e o que fazem ali. São histórias diversas no tempo e no espaço, que mantém o interesse contínuo ao apresentar cenários e situações muito diferentes entre si, ao mesmo tempo em que desenvolvem os personagens e ampliam nossa compreensão do universo do Atlas. Não existe sidequest aqui: a história avança sempre.

A estrutura do romance lembrou-me uma espiral. Ou melhor: é como se o leitor começasse na parte interna de uma espiral, onde ainda enxerga pouca coisa. Mas a medida em que caminha, ele consegue ver cada vez mais do mundo e descobre que a realidade que acreditava conhecer é apenas uma de muitas. E, sim, nem tudo é explicado em todos os detalhes. Há dúvidas, espaço para que o leitor preencha lacunas com sua própria imaginação. Como é bom acompanhar uma história que não fica obcecada em explicar cada mínimo detalhe de seu universo como se não confiasse no leitor.

Quem segue a Ana Cristina nas redes sociais vai reconhecer muitas das referências, valores e vivências da autora. O modo como ela traduz tudo isto em ficção é quase uma lição para qualquer escritor: a história que ela conta não fica em segundo plano e as referências nunca atrapalham, apenas enriquecem a obra. Fazendo um esforço tremendo para não dar um pequeno spoiler, há um momento particularmente doloroso quando o exemplar de um certo livro é encontrado junto ao Atlas, já no final do romance.

Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados é um livro de fantasia que apresenta um universo inédito, foge de tropes convencionais do gênero (muita atenção às personagens femininas; nós, escritores homens, precisamos ler mais livros assim), nos apresenta personagens sólidos e vívidos e passeia com desenvoltura por mitologias e ideias diversas.

Espero sinceramente que Íbis e o Rei-Máquina encontrem logo seu lugar nas livrarias.

Sobre leitura beta

No episódio 33 do podcast Curta Ficção, os hosts Thiago Lee e Jana Bianchi falam de leitura beta: o que é e como lidar com ela, tanto na visão do leitor quanto do escritor. Um ótimo episódio que me fez conhecer o infográfico esclarecedor da escritora Mary Robinette Kowal.

O mais importante, para quem faz este trabalho de leitura beta (especialmente se é um escritor) é que o autor do livro quer saber se o universo criado por ele e que faz todo o sentido do mundo em sua cabeça foi transcrito para o texto de uma forma que o seu leitor entenda. O escritor não está procurando diagnóstico ou dicas: ele quer sintomas. O que o leitor sentiu ao ler sua obra, o que funcionou ou não, os bons momentos e os problemáticos.

Como Mary Robinette resume, ao final do post:

All you have to do is report your symptoms.
All the writer has to do is record data points.